Você sabia que existem lendas e crenças relacionadas à Quaresma?

A Quaresma tem o objetivo de preparar os fiéis para bem celebrar a Páscoa do Senhor. Entretanto, é comum vermos algumas crenças que cercam esta data. Entenda!
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A palavra Quaresma vem do latim Quadragesima (dies), significando quarenta dias.

É um número simbólico, pois nos lembra os quarenta anos que o povo hebreu passou no deserto, do Egito à Terra Prometida e também nos recorda os quarenta dias que Jesus vivenciou no deserto, antes de iniciar a sua vida pública.

A Igreja, com o tempo, fixou seis semanas de Quaresma, tendo como objetivo preparar os fiéis para bem celebrar a Páscoa do Senhor. É um tempo oportuno para a mudança de vida, afinal, Jesus não quer holocaustos e sacrifícios, mas corações puros e misericordiosos! Aí está o maior objetivo desse Tempo Litúrgico: transformar os corações de pedra em corações de carne!

godongphoto / shutterstock
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No entanto, com o passar dos anos, no decorrer da História, o objetivo principal, relembrado acima, foi se perdendo em meio a inúmeras lendas e crendices populares, que empobreceram o sentido maior desses quarenta dias.

É certo que fazer jejum e penitência pode ajudar-nos a entender melhor o sentido do desapego aos bens terrenos e da importância da humildade em nossa vida, mas pode atrapalhar a nossa caminhada cristã se voltarmos a adotar o método farisaico: sobrepor as leis à vida! “O sábado foi feito para o homem, não o homem para o sábado!” (Mc 2, 27).

Quando divinizamos as regras, tornamo-nos cegos para o verdadeiro sentido dos nossos atos. Se digo que não comerei carne nas quartas e sextas-feiras da Quaresma, faço um gesto bonito de penitência e abstinência, para que eu mesmo possa dar passos em minha caminhada cristã. Mas se deixo de comer carne nesses dias porque tenho medo das consequências, dos castigos, começo a divinizar essa lei.

Tentemos resgatar o verdadeiro sentido da penitência, do jejum e da abstinência. Eles são instrumentos para lapidar o nosso interior; para nos auxiliar a sermos pessoas mais dignas do amor de Deus.

Quaresma não é tempo de bruxas e lobisomens; assombrações e almas penadas. Tudo isso é deformação desse tempo maravilhoso de reflexão. Quando eu era pequeno, no interior, morria de medo da Quaresma, pois foi me ensinado que “o diabo era solto por Deus para fazer o que quisesse, tentando as pobres almas penitentes”. E pior ainda, que o Saci estava solto! O Saci era pior do que o demônio (parte do sudoeste paulista e do nordeste do Paraná tem horror a esse personagem folclórico!).

Dizia-se, também, que “uma procissão de almas penadas” passava na rua do bairrinho rural em todas as noites quaresmais. E aí os cães começavam a latir: essa era a “prova” de que realmente elas estavam lá fora. Haja coragem para uma criança aguentar isso!

Seguindo a cultura judaica sobre o dia do sábado, o catolicismo popular também apresenta regras rígidas para os dias de Quaresma e Semana Santa. Na Sexta-feira da Paixão, quase tudo é “proibido”. Não se pode varrer a casa, lavar roupa, pescar, jogar futebol, ou fazer qualquer gesto que se reporte à diversão ou ao trabalho. Que bom se não se pudesse fofocar, brigar e guardar mágoas dos vizinhos!

Jacob Lund/Shutterstock
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Outro costume muito estranho acontecia no Sábado de Aleluia, na Vigília Pascal. Nos dias da Quaresma, as mães não podiam surrar os filhos, devido às proibições próprias do Tempo; mas, no Sábado Santo, tudo poderia ser descontado. A mãe dizia aos filhos que naquele dia era permitido dar-lhes uma surra, “para lhes tirar a ‘aleluia’ do corpo!” Santo Deus!

E era nesse dia, também, que se encerravam oficialmente as penitências que se iniciaram na Quarta-feira de Cinzas. Ou seja, ficava-se sem fumar ou sem beber durante quarenta dias, mas se descontava tudo no dia mais especial para a nossa Igreja, o sábado de profundo respeito e silêncio interior! Haja contradição!

Existe uma diferença entre respeito e exagero no que concerne às leis e às regras. É preciso ter coerência e disciplina na fé, mas sem adotar a religião dos fariseus extremistas da época de Jesus. Enfim, viver uma boa Quaresma é ter consciência do porquê de ela existir!

Se chegarmos à Páscoa do Senhor com mais amor no coração, superando toda mágoa e rancor acumulados com o tempo e sendo pessoas mais agradáveis e caridosas, terá sido a melhor Quaresma de toda a nossa vida! Pensemos nisso!

Viver uma Quaresma com amor e sentido

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