Magnifica Humanitas reúne referências inesperadas da filosofia, arte e literatura para discutir verdade, dignidade humana e inteligência artificial
A primeira encíclica do pontificado do Papa Leão XIV, Magnifica humanitas (“Magnífica Humanidade”), apresenta um amplo diálogo entre fé, cultura e pensamento contemporâneo. Assinada em 15 de maio, no aniversário dos 135 anos da Rerum Novarum e divulgada em 25 de maio, o documento reúne referências que vão da filosofia grega à literatura fantástica, passando pela música, ciência, cinema e movimentos sociais.
O texto começou a ser escrito durante o período de descanso do Pontífice em Castel Gandolfo e foi assinado na mesma data da histórica da encíclica Rerum Novarum, marco da Doutrina Social da Igreja, escrita por Leão XIII, Papa que o inspirou a escolher o nome Leão XIV.
Ao longo das páginas, o Santo Padre cita nomes como Platão, Marie Curie, Pablo Picasso, Ludwig van Beethoven, Nelson Mandela e Steven Spielberg. A proposta é mostrar como diferentes expressões humanas ajudam a refletir sobre dignidade, verdade, fraternidade e os desafios da inteligência artificial.
Tolkien e Gandalf entram na encíclica
Uma das referências que mais chamou atenção foi a citação de J.R.R. Tolkien, autor de O Senhor dos Anéis.
O Papa utiliza uma fala do personagem Gandalf para tratar da responsabilidade moral de cada geração diante da desumanização provocada pela lógica do poder e pelo avanço tecnológico sem critérios éticos.
“Não nos cabe, porém, reunir todas as marés do mundo, mas fazer o que estiver ao nosso alcance para ajudar os anos em que nos encontramos, erradicando o mal dos campos que conhecemos, para que aqueles que vierem depois de nós possam ter uma terra digna de ser cultivada.”
A partir da frase, Leão XIV escreve:
“A civilização do amor não nasce de um único ato espetacular, mas da soma de pequenos e tenazes atos de lealdade que se erguem como um baluarte contra a desumanização.”
No documento, o Pontífice propõe cinco caminhos para a vida pública e pessoal: palavras desarmantes, justiça como caminho de paz, olhar a partir das vítimas, realismo saudável e fortalecimento do diálogo.
Beethoven, Picasso e Spielberg como sinais proféticos
Leão XIV também destaca manifestações culturais que, segundo ele, possuem “valor quase profético”. A Nona Sinfonia, de Beethoven, aparece como expressão do “desejo de unidade” entre os povos.
Já Guernica, de Picasso, é apresentada como denúncia artística da violência e da desumanização causada pela guerra.
O Papa ainda menciona ‘A Lista de Schindler’ de Steven Spielberg como um “convite a não deixar cair o passado no esquecimento”.
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Hannah Arendt e o risco do totalitarismo
Ao refletir sobre democracia e verdade, o documento cita Hannah Arendt e sua obra “As Origens do Totalitarismo”.
Segundo a encíclica, a perda do interesse pela verdade favorece um pragmatismo centrado apenas no que parece útil ou eficiente.
Leão XIV reproduz uma das análises mais conhecidas da filósofa:
“Aquele para quem já não existe a diferença entre o fato e a ficção (isto é, a realidade da experiência), nem a diferença entre verdadeiro e falso (que constituem os critérios do pensamento).”
O Papa afirma que esse processo pode levar “lenta, mas inexoravelmente” ao totalitarismo.
Viktor Frankl e o sentido da vida
Entre as referências ligadas ao sofrimento humano, aparece Viktor Frankl, sobrevivente dos campos de concentração nazistas.
Leão XIV recorda a experiência do autor de “Em Busca de Sentido” para defender que a dignidade humana permanece mesmo em cenários extremos de dor e destruição.
Mulheres lembradas pelo Papa
A encíclica também destaca mulheres que contribuíram para “tornar a história mais humana”. Entre elas estão: Santa Teresa de Calcutá, Santa Laura Montoya, Dorothy Day e Elisabeth Elliot.
O texto ainda menciona figuras de fora do ambiente católico, como Marie Curie, pioneira nos estudos da radioatividade; Maria Montessori, conhecida pelo método educacional centrado na criança; e Wangari Maathai, vencedora do Nobel da Paz.
Leão XIV cita também Benazir Bhutto, primeira mulher eleita para governar um país de maioria muçulmana.
Platão e a formação humana
Na seção dedicada à educação, o Pontífice retoma a sétima carta de Platão, escrita no século IV a.C., sobre a experiência política do filósofo em Siracusa.
A referência serve para sustentar a ideia de que educação e ética caminham juntas na construção da sociedade.
Mártires da fraternidade
A encíclica termina recordando testemunhas cristãs que viveram em contextos de perseguição e pobreza. Entre os nomes citados estão São Maximiliano Kolbe, São Óscar Romero, Enrique Angelelli e François-Xavier Nguyễn Văn Thuân.
Leão XIV os define como “mártires da fraternidade e da justiça”, capazes de testemunhar a esperança cristã mesmo em condições extremas.
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Fonte: Vatican News